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América em ponto de ruptura

O levante social dos anos 1960 encontra a polarização política e a disfunção institucional do presente.

Link: https://www.vox.com/platform/amp/2020/6/1/21275746/trump-protests-police-floyd-george-riots

Veículo: Vox.com

Data de publicação: 01/06/2020

Autorx: Ezra Klein

Título original: America at the breaking point

The social upheaval of the 1960s meets the political polarization and institutional dysfunction of the present.

Traduzido por/Translated by: Nara A. de Souza

Nos anos iniciais da era Trump, frequentemente me perguntavam se a política americana já havia sido tão ruim antes. Eu sempre disse a mesma coisa. Tem sido muito pior. Pense nos anos 1960. John F. Kennedy e Malcolm X foram assassinados dentro de dois anos um do outro. Martin Luther King Jr. e Robert F. Kennedy foram assassinados dentro de dois meses um do outro. Motins incendiaram cidades. Terroristas domésticos detonaram bombas em todo o país. Os Cavaleiros da Liberdade foram espancados e mortos. Policiais brancos direcionaram cães e mangueiras de incêndio em crianças negras. O recrutamento do Vietnã forçou os jovens da nação à guerra. A convenção do Partido Democrata de 1968 colapsou em violência. Os Estados Unidos estavam se desfazendo, com desentendimentos medidos em balas e sangue.

Mas havia uma coisa que os anos 60 tinham, que nós não temos hoje: um sistema político projetado para absorver conflitos e encontrar consenso, ou pelo menos estabilidade. Não procuro abafar a era com nostalgia. Essa calma era muitas vezes comprada a um custo moral terrível, como na união dos democratas Dixiecrats e do New Deal Democrats que mantiveram a segregação década após década. Mas nossas divisões não acompanharam nossos partidos e, portanto, foram abafadas em nossa política. O que nosso sistema político não conseguia resolver, suprimia. O que não podia mais suprimir, procurou resolver. Quando a Lei dos Direitos Civis foi aprovada, o fez com votos republicanos, mesmo sendo proposto por um democrata. Imagine uma legislação de tal consequência passando sem valência partidária hoje.

Os comprometimentos daquela época salvaram o país, mas eles acabaram com aquele sistema político. A Lei dos Direitos Civis desencadeou um realinhamento dos partidos. Richard Nixon armava a fúria que seus antecessores haviam tentado acalmar. Os partidos se reestruturaram lentamente: o Partido Democrata se tornou o partido dos liberais, sua coalizão racial e religiosamente diversa, seus centros de poder urbanos. O Partido Republicano se tornou o partido dos conservadores, sua coalizão branca e cristã, seus centros de poder rurais e semi-rurais.

Esta é a história da polarização política norte-americana. Por um tempo, no século 20, nossas coalizões políticas não ecoavam nossas divisões sociais, nossos partidos se misturavam o suficiente para ver pouco benefício em aguçar as contradições e, portanto, o sistema político frequentemente acalmava nossos conflitos. Isso era feito de maneira bastante imperfeita e, muitas vezes, injusta, mas os EUA aguentaram firme quando poderiam ter desmoronado facilmente.

Hoje, nossas coalizões políticas são nossas divisões sociais, e isto muda tudo. Quando há uma ruptura dentro de um partido, o incentivo é superá-la ou ignorá-la para manter a coesão e reter os eleitores oscilantes. Quando a ruptura ocorre entre partidos diferentes, o incentivo é fomentar e intensificar as diferenças e, mobilizar apoiadores. A subestrutura tecnológica e financeira da política e da mídia se transformou de maneira a reforçar a polarização dos partidos, à medida que noticiários noturnos e jornais diários deram lugar ao estremecido sistema nervoso do Twitter, aos incentivos indentitários do Facebook e aos gritos nos noticiários da TV a cabo.

Essas instituições estão em um ciclo de retorno entre si, e o que é alimentado de um lado para o outro, cada vez mais alto, é conflito, colisão e fúria. Donald Trump é este sistema personificado para a forma humana, um especialista em mídia social e favorito dos noticiários de TV a cabo que cavalgou neste ciclo de indignação até a Casa Branca. Ele entendeu nossas divisões melhor do que nós, e isso é visto, em nossa época, como uma forma de genialidade política.

Mas o que faz Trump ser bem-sucedido é o que o torna perigoso: ele sabe apenas uma coisa e a sabe muito bem. Tudo o que ele pode ver é a divisão; tudo o que ele sabe é discórdia; tudo o que ele pode fazer é escalar. Ele é o rei Midas do conflito, transformando o país que lidera naquilo que acredita que sejamos, no que ele próprio é.

Quando elegemos Donald Trump, elegemos um incendiário político. O único consolo de sua presidência, em seus primeiros anos, era que havia surpreendentemente pouco pavio acesso. A economia cantarolava, aparentemente imperturbável. Enfrentamos poucas crises exteriores. As divisões domésticas permaneceram em sua maioria digitais. Isso não significa descartar desastres reais ou desculpar políticas cruéis, - de crianças jogadas em gaiolas a toxinas despejadas em nossos rios e à má administração letal do furacão Maria - mas poderia ter sido pior.

Fingir uma guerra civil no Twitter, como o presidente costumava fazer, nunca foi o pior cenário. O pior cenário foi a fratura social e as violentas crises da década de 1960 somadas ao sistema político e de mídia de 2020; os testes de liderança presidencial que definiram épocas passadas começaram a ser exigidas desse líder, nesta época. Não estávamos lá e, de repente, estávamos.

Estamos.

A pandemia, alimentada pela resposta irregular e imprudente do governo Trump, deixou mais de 100.000 norte-americanos mortos - mais do dobro de vidas que perdemos na Guerra do Vietnã, e a contagem continua aumentando. A economia está em queda livre. O tecido da sociedade foi cortado, nossa cultura está em guerra por máscaras e bloqueios, e o governo federal falhou em não conseguir traçar o caminho para um futuro seguro. Somos uma nação interrompida, ansiando pela normalidade que perdemos, insegura do futuro que enfrentamos.

Depois vieram os linchamentos, um após o outro: Ahmaud Arbery, caçado por pistoleiros em um caminhão. George Floyd, preso ao chão por um agente armado do Estado, morrendo lenta e publicamente. Breonna Taylor, morta a tiros em sua casa. E agora, os protestos e motins. Há sangue nas ruas, carros passando por cima de multidões, prédios pegando fogo, corpos sendo enterrados, policiais casualmente atirando nas mesmas pessoas que eles juraram proteger. E todos nós, presos em casa, vendo coisas que não podemos “desver”, forçados a um acerto de contas que o país sempre procurou adiar. "Há muitas coisas que não queremos saber sobre nós mesmos", escreveu James Baldwin. Mas na era das câmeras de smartphones e vídeos virais, o conhecimento é imposto a nós. Vemos quem realmente somos e vemos quem nossos líderes realmente são.

"Quando o saque começa, o tiroteio começa", twittou Trump, em uma missiva tão ávida por violência que o Twitter o ocultou da maioria dos usuários. Como ele costuma fazer, Trump escreveu o subtexto do momento: A linha não é nova. É de 1967, quando o chefe de polícia de Miami, Walter Headley, avisou às comunidades negras que definiria sua abordagem dali para frente. George Wallace, o segregacionista Dixiecrat, repetiu isso em sua campanha presidencial de 1968.

Os anos 60 estão aqui, novamente. Estamos em risco de desabar. Mas esse é um sistema político menos experiente em nos manter unidos, menos capaz de encontrar calma em meio a tempestades. Nossas divisões definem nossos partidos e nossas instituições racham sob a pressão; O Congresso não pode resolver pequenas disputas, para não falar de fraturas fundamentais. E nosso presidente está claramente ansioso pela chegada da tempestade. Ele não sabe como combater um vírus, mas sabe como combater seus compatriotas.

"Grande multidão, profissionalmente organizada, mas ninguém chegou perto de quebrar a cerca", ele twittou no sábado. “Se eles tivessem, teriam sido recebidos com os cães mais cruéis e armas mais ameaçadoras que eu já vi. É aí que as pessoas teriam ficado gravemente feridas, pelo menos. "

Mas não se preocupe, Trump continuou. "Eu estava lá dentro, assisti todos os movimentos e não poderia me sentir mais seguro." Talvez ele se sinta seguro, twittando ao vivo de dentro do palácio presidencial, mas o resto de nós não. Nós não estamos.

As nuvens ainda podem se separar. Poucos americanos querem violência. E ainda somos, acredito, um país melhor do que nosso líder pensa sermos. Os canais de TV a cabo e o Twitter alimentam a violência, mas os não-violentos continuam sendo a verdadeira história - eles são a maioria, a grande maioria, arriscando seus corpos por justiça, varrendo vidros quebrados, absorvendo golpes de bastões e inalando gás lacrimogêneo simplesmente como um ato de solidariedade. Eles tornam a América ótima.

Mas eu estaria mentindo se dissesse que não estava com medo. Não seria preciso muito mais para realmente incendiar o país. Não são apenas as notícias que se tornaram pesadelos nos últimos meses. É a nossa vida, a nossa realidade. Estamos cansados, assustados, zangados, magoados, desconfiados e divididos - e é um ano de eleições. A inflamação está em toda parte. Este é um país à beira da guerra e precisa tanto da liderança que não possui, de um presidente que realmente deseja a paz.

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