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Ao apagar a história negra, escolas britânicas falham com todos

O atual sistema educacional é construído para enterrar a culpa branca. Aqueles lutando por sua reforma nos dizem porque a mudança é vital.

Link: https://i-d.vice.com/en_uk/article/935ana/by-erasing-black-history-british-schools-fail-everyone

Veículo: I-d.vice.com

Data de publicação: 12/06/2020

Autorx: Douglas Greenwood

Título original: By erasing Black history, British schools fail everyone

The current education system is built to bury white guilt. Those fighting for it to be reformed tell us why change is vital.

Traduzido por/Translated by: Nara A. de Souza

Lavinya Stennett passou a vida na Grã-Bretanha, mas teve que deixá-la para ter uma perspectiva de quão falho é seu sistema educacional. Durante seu ano na Nova Zelândia, a fundadora do The Black Curriculum (O Currículo Negro, em tradução livre), nascida em Londres, estudou os Direitos à Terra Indígena. "Eu estava em palestras e alguém falou sobre a maneira como o colonialismo havia apagado a história Maori do currículo", diz ela. “Eu percebi que a mesma coisa aconteceu no Reino Unido com os negros. Era um sistema global de apagamento e eu sabia que tinha que fazer algo a respeito.”


Quando voltou ao Reino Unido, Lavinya reuniu alguns amigos que estavam interessados ​​em entender exatamente o quanto a história negra e o imperialismo branco haviam sido omitidos no currículo escolar do país. Eles mantiveram grupos focais e perceberam algo: que as histórias que formam as raízes da Grã-Bretanha industrializada negligenciaram, ao longo da história, as contribuições vitais do povo preto e enquadraram os atos violentos dos imperialistas brancos como algo completamente diferente. Assim, nasceu o Black Curriculum: uma organização que se propõe a educar crianças de 8 a 16 anos nas escolas

sobre a história negra e o impacto indelével dos povos negros na sociedade contemporânea.


Há muito tempo em campanha, esse é um assunto que ganhou mais atenção nas últimas quinzenas, após as mortes de George Floyd, Breonna Taylor e inúmeros outros nas mãos da força policial dos EUA. O contra-argumento mais comum para aqueles que protestavam no Reino Unido era que se tratava de uma questão americana; que a brutalidade policial e o racismo sistêmico não existiam tão insensivelmente na Grã-Bretanha. "Enquanto todo mundo estava apontando o dedo para os Estados Unidos, eu sabia que os problemas se originaram aqui", diz Joshua Bailey, que lançou uma petição para que o imperialismo branco e a história negra fossem cobertos mais detalhadamente nas escolas. “Para tentar mudar alguma coisa, é preciso mudar a raiz ao invés de observar os sintomas e tentar erradicar isso. O coração do problema está no Reino Unido.”


Qualquer criança criada no sistema de ensino britânico ao longo do século passado ou mais aprendeu sobre a história de seu país através de uma perspectiva cor-de-rosa. Nos contam histórias de nobreza: do espírito empreendedor de homens britânicos que construíram negócios prósperos no exterior e trouxeram a “força” de nosso próprio poder a lugares que precisavam de nossa ajuda.


"As pessoas não sabem muito sobre tudo isso, e isso é geracional", diz Lavinya. “Adultos que têm o dobro da minha idade, pessoas da minha idade (18-24) e esses grupos mais jovens também? Eles realmente não sabem de nada porque o Currículo Nacional não possui exemplos claros da história do povo negro."


Uma rápida olhada nos recursos educacionais on-line, como a BBC Bitesize, apresenta algumas realizações gritantes: os nomes dos colonizadores são amplamente documentados, os produtos de suas ações emoldurados como positivos para a Grã-Bretanha, sem contemplar completamente os sacrifícios humanos que vieram com eles. Enquanto isso, os escravizados são vistos como pessoas coletivas, e não indivíduos com histórias importantes para contar. Nomes como Toussaint L'Ouverture, um ex-escravo que liderou a Revolução Haitiana, raramente são proferidos nas aulas de história do ensino médio. Ouvimos muita coisa sobre Winston Churchill salvando a Grã-Bretanha do domínio nazista, mas pouco sobre o genocídio que ele causou ao desviar fontes de comida de Bengal para seus soldados, matando entre 2 e 3 milhões de pessoas. Quando nos ensinam o que aconteceu durante a pilhagem britânica de nações estrangeiras, raramente nos dizem que o que aconteceu estava errado.


"Houve um clamor público de que as coisas não estão certas, mas por causa de quão rígidas são as práticas institucionais e de quanto as pessoas no poder gostam de defendê-las, será necessário lutar antes de vermos as consequências", diz Joshua. As instituições estão cheias de culpa branca; a mudança vem de abordar isso, em vez de varrer o que deixa as pessoas brancas desconfortáveis ​​debaixo do tapete. "Minha petição era sobre mudar o currículo para fornecer uma revisão mais abrangente do império britânico e de sua história imperialista e colonialista, mas depois de um pouco de pesquisa, percebi que as pessoas lutaram para mudar isso há muitos anos." Na década de 1970, Joshua destaca, a Associação de Trabalhadores da Comunidade Educacional do Caribe, sediada no bairro de Haringey, no norte de Londres, lutou por essa reforma. Eles até apoiaram a publicação de livros que mostravam como as crianças britânicas com herança das Índias Ocidentais eram "educacionalmente subnormais". A mudança veio, mas “...houve reação e tentativas de mudar o currículo de volta. [Mais recentemente], havia um plano proposto para remover Mary Seacole [uma enfermeira escocesa-jamaicana que ajudou a salvar soldados durante a Guerra da Crimeia] do currículo em 2012. Algo acontece, há um protesto público e as coisas mudam. Então, quando as coisas desaparecem, há uma tentativa de mudá-las de volta."


"Você não pode ter os dois lados", acrescenta Lavinya, "nos quais dizemos que somos uma sociedade multicultural, mas realmente não sabemos nada sobre essas culturas".


Mudar o currículo atual não deve ser uma tarefa deixada exclusivamente para os pretos, quando os brancos em posições de poder foram os responsáveis ​​por apagar essa história em primeiro lugar. Como Lavinya acha que aliados não-negros deveriam ajudar? "Ao abordar esse ponto de reflexão e fazer a si mesmo essa pergunta", diz ela. “Frequentemente, com a intensidade das mídias sociais, agimos rapidamente, sem pensar onde poderíamos estar melhor posicionados para entender como a opressão estrutural se manifesta. Tomar um tempo para refletir, ouvir e aprender é importante. Para mim, essa é a práxis da mudança."


O Currículo Negro também quer expandir a narrativa além da situação dos negros, em seu impacto na música através do Calypso e na culinária também. Agora, eles têm uma equipe de quase 20 pessoas, com o financiamento levantado na última quinzena - alguns graças à ajuda da banda Gorillaz - prometendo mudar isso, mas seu objetivo continua o mesmo: “alterar o currículo nacional e aumentar a senso de identidade e pertencimento. Para nós, não há melhor momento para fazer este trabalho. O plano para o ano teve que ir ao lixo e tivemos que analisar tudo novamente em duas semanas. Nós vamos ter essa reunião [com Gavin Williamson]." O que eles gostariam de lhe dizer? "Está claro para todo mundo agora que essa mudança é tão necessária. Está sendo exigido de todos os lugares; recebemos centenas de e-mails dizendo que isso é muito bem-vindo. Não se trata de convencê-lo, é apenas olhar para as evidências. Está tudo lá."


Há uma frase que a ativista anti-racista Jane Elliott disse que soa verdadeira aqui: "as pessoas que são racistas não são estúpidas, são ignorantes. E a resposta para a ignorância é a educação." Somente com uma reforma de como aprendemos sobre a história manchada da Grã-Bretanha e o papel fundamental que os negros desempenharam na sustentação do país - por meio da cultura e do quanto somos gratos à geração Windrush - teremos a oportunidade de fazer essa mudança espalhar-se ainda mais.

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