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Protestei por justiça racial. Tenho que postar nas mídias sociais?


Link: https://www.nytimes.com/2020/06/30/magazine/ive-protested-for-racial-justice-do-i-have-to-post-on-social-media.html

Veículo: Nytimes.com

Data de publicação: 30/06/2020

Autorx: Kwame Anthony Appiah

Título original: I’ve Protested for Racial Justice. Do I Have to Post on Social Media?

Traduzido por/Translated by: Stefania Tolomeotti

Sou um estudante universitário branco tentando ser um melhor defensor da justiça racial após a morte de George Floyd. Embora eu não tenha sido muito politicamente ativo no passado (do que me arrependo), recentemente participei de um protesto, doei muitas das minhas economias para fundos de fiança e organizações sem fins lucrativos, liguei para meus representantes sobre essas questões e tentei me educar sobre a história dos negros e vozes negras. No entanto, eu não publiquei em minhas mídias sociais pessoais sobre o Black Lives Matter. Acho que não tenho uma perspectiva única a acrescentar a essa conversa e não gosto do escrutínio que vem com uma postagem de rede social. Também me preocupo que, se eu postar sobre o Black Lives Matter, isso será motivado principalmente pela sinalização de virtude.

Acredito que meu tempo seria gasto mais eficientemente apoiando o movimento Black Lives Matter de outras maneiras. Mas também ouvi o argumento de que todo mundo tem uma obrigação de postar e que ficar em silêncio nessas plataformas é moralmente errado. O que você acha: ser um aliado exige o envolvimento com as mídias sociais? (Autor da mensagem não revelado)

Os cidadãos de uma democracia compartilham uma responsabilidade coletiva de guiar o navio do Estado. É por isso que o progresso em direção à justiça racial em nosso país é algo de que todos devemos participar para avançar. Como muitos americanos, você se emocionou com o doloroso espetáculo da vida de um homem que foi lentamente apagada por um oficial do Estado, e também está preocupado com o fato de os negros continuarem sofrendo violência policial de maneira desproporcional ao seu número. Ao contrário da maioria, você decidiu fazer a diferença. Se todos os outros tivessem feito o mesmo que você, certamente teríamos avançado. Portanto, não vejo motivo para reclamar do quanto você está fazendo. O quinhão só será repartido de forma justa se todos fizerem o que for necessário para alcançar a justiça. Primeiramente, as pessoas não são moralmente obrigadas a ter uma conta de mídia social; quando o fizerem, devem ser livres para postar o mínimo ou o quanto quiserem, ou para tratá-la como uma zona estritamente pessoal ou como um fórum para expressar suas preocupações mais amplas.

A questão que você levanta sobre a “sinalização de virtude”, no entanto, merece mais atenção. Alguns filósofos argumentaram que o discurso público é degradado quando as pessoas procuram elevar seu status dentro de um grupo, exibindo suas qualidades morais. "Grandstanding" (busca por aplauso/vaidade), argumentam os filósofos Justin Tosi e Brandon Warmke em um novo livro com esse título, envolve formas de argumento moral motivadas pela vaidade de auto apresentação, pelo desejo de mostrar que alguém está do lado dos anjos. Eles acreditam que as pessoas engajadas na vaidade moral tenderão a "aderir a uma crítica", repetindo uma crítica amplamente compartilhada; "fingir", representando um ato inocente como uma ofensa grave; e "fortalecer", fazendo reivindicações cada vez mais fortes e polarizadoras, a fim de superar as reivindicações morais de outros. Há um aspecto kantiano na perspectiva deles: para Kant, era de grande importância que não apenas fizéssemos a coisa certa, mas pela razão certa. A noção de sinalização de virtude, que foi cunhada como um termo de reprovação, tem precisamente essa valência kantiana. (Isso pode ser uma surpresa para muitos que brandam o termo).

Mas a sinalização de virtude não é necessariamente um vício. Vamos admitir que ela pode ter aspectos infelizes. Mas também não possui aspectos positivos substanciais? Quando se trata de valores morais incontestados, podemos premiar a boa ação não anunciada e anônima (você salva a criança que está se afogando, por exemplo, e fica quieto sobre seu heroísmo). No entanto, as revoluções morais que pesquisei envolvem o que os cientistas políticos chamam de "cascatas de normas" e a dimensão social da tomada de posição desempenha um papel crítico aqui. No final do século 18, o fabricante inglês Josiah Wedgwood começou a produzir medalhões de cerâmica com as palavras "Não sou um homem e um irmão?" acima de uma figura negra acorrentada. Eles se tornaram um imenso ícone popular entre os abolicionistas – uma forma de sinalização de virtude que ajudou a fortalecer e espalhar uma ideia moral vital. Nas palavras de outro filósofo, Neil Levy: "A sinalização é uma função central do discurso moral público, com um papel importante a desempenhar na viabilização da cooperação." É por isso que adesivos e slogans publicados nas paredes, sejam digitais ou físicos, podem ser significativos.

Os efeitos malignos da vaidade são reais, mas geralmente acontecem quando um importante instrumento para o progresso moral é colocado a serviço de objetivos ruins, e não bons. "Aderir a uma crítica" pode significar que as pessoas decidiram coletivamente renunciar a um mal anteriormente tolerado: seria importante que muitos oficiais da lei e até alguns representantes de sindicatos da polícia se juntassem contra a insensível morte de George Floyd. A acusação de "fingir" pode surgir de uma reavaliação genuína de uma conduta que já foi dada como certa – é a acusação que o chefe assediador sexual da velha guarda faz quando hábitos que ele considera inofensivos ("O que há de errado em dizer a uma mulher que ela está sexy?”) são vistos corretamente sob uma nova luz. O "fortalecer" pode nos levar da noção de que a conduta homossexual deve ser descriminalizada à noção de que gays e lésbicas devem poder se casar.

Em momentos de mudança moral, as pessoas passam de meramente reconhecer um erro a querer fazer algo a respeito. E o que impulsiona essa mudança é, em parte, a sensação de que aqueles que não contribuem para a mudança não estão somente não fazendo algo de bom; eles estão perdendo seu direito ao respeito das pessoas ao seu redor. Não participar se torna desonroso. Em muitas das revoluções morais sobre as quais escrevi – contra a escravidão, duelos e enfaixamento dos pés, por exemplo – vencer o argumento moral é apenas o primeiro passo. Para levar a maioria das pessoas a viver e agir de novas maneiras, você deve fazê-las sentir que fazer o que é certo agora é necessário para o respeito social. Essa é uma área em que a rede social pode ajudar. E se você acredita que pode dar uma contribuição aqui, não se intimide com o medo de ser – ou pensar ser – um sinalizador de virtude. Para que surjam novas e melhores normas, é preciso falar. Mas, como você reconhece, tem que haver mais do que falar. As pessoas têm que agir. Você deve ser elogiado por já ter feito isso.

Eu sou o coautor, juntamente com outros três cientistas, de um artigo que planejamos enviar a um importante jornal de física. Antes de saber qual publicação escolheríamos, convidei um professor que também é membro do conselho editorial do jornal em questão para ser o orador principal de uma conferência que ajudei a organizar. O professor aceitou e nós estivemos em contato nos últimos meses sobre a conferência.

Estou preocupado com um potencial conflito de interesses aqui. O professor provavelmente acabará sendo o editor do artigo, o que implica decidir se deve aceitá-lo para revisão. A eventual publicação do manuscrito é baseada nas opiniões de dois revisores e do editor. Embora eu esteja certo de que o convite para a conferência não influenciará o professor, não quero abrir margem para má interpretação, nem que o professor pense que eu espero tratamento especial. Uma opção é pedir que o professor seja excluído como editor desta proposta. Eu discuti essa questão com o coautor sênior do artigo e ele não acha que devemos excluir o professor, que, na sua opinião, é a pessoa mais competente para lidar com o manuscrito. Ainda assim, existem outros editores qualificados. Devo insistir em excluir este professor como editor? (Autor da mensagem não revelado)

Espere – você fez um favor a esse professor ou o professor lhe fez um favor? Não importa. Ser avaliado por uma pessoa com quem você teve relações amigáveis ​​pode não apenas aparentar uma distorção, como torná-la real. Mesmo quando estamos fazendo o nosso melhor para sermos escrupulosamente justos, podemos ser tendenciosos (às vezes negativamente, por excesso de cautela). Ainda assim, em um pequeno subcampo, pode ser difícil evitar esses laços. E seu professor tem dois revisores presumivelmente independentes nos quais confiar. Não podemos excluir totalmente uma possível má interpretação. O melhor que podemos fazer é ter sistemas que o limitem.

Os processos da publicação funcionarão bem se o seu artigo for claramente excelente – o preconceito inconsciente da parte de alguém não determinará o resultado – ou claramente abaixo da média, porque os editores não irão publicar algo que prejudique sua reputação. Somente se o artigo estiver na zona intermediária, a questão da proximidade terá importância. Então você provavelmente pode deixar as coisas acontecerem; qualquer injustiça será bastante mínima. O universo pode lidar com um artigo que está em uma publicação um pouco melhor do que merece.

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