• Projeto Traduções LIVRES

Resista ao desejo de simplificar a história

À medida que os protestos se multiplicam, a incerteza é abundante - e Trump a usa para assustar os americanos longe de qualquer violência.

Link: https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2020/06/trump-tries-scare-people-who-are-far-protests/612568/

Veículo: Theatlantic.com

Data de publicação: 06/06/2020

Autorx: Anne Applebaum

Título original: Resist the Urge to Simplify the Story

As protests multiply, uncertainty abounds—and Trump is using it to frighten Americans far from any violence.

Traduzido por/Translated by: Marilyn Barros

Como muitos americanos, eu estou longe de qualquer tipo de violência no momento. No entanto, tenho visto violência em uma série de telas: telas de TV, telas de smartphones, telas de computadores. Até mesmo em uma sala tão quieta quanto a minha – do lado de fora da janela consigo ver grama e árvores – a cacofonia é quase insuportável. É como se diferentes coros estivessem cantando todos ao mesmo tempo, e sem harmonia.


Em Salt Lake City, a polícia derrubou um idoso que estava andando com uma bengala. Na cidade de Nova Iorque, dois policiais dirigindo uma SUV, colidiram com uma multidão. Em Houston, por outro lado, o chefe de polícia disse a uma multidão multiracial que “se você tem ódio no seu coração pelas pessoas de cor, deixe isso para trás”. Em Camden, Nova Jersei, policiais marcharam junto dos que protestavam. No domingo, manifestantes em Washington D.C. queimaram lojas e começaram um incêndio no refeitório da igreja Episcopal de St. John, bem ao lado da Praça Lafayette de frente à Casa Branca. Na segunda-feira, manifestantes pacíficos que estavam na praça foram atingidos com gás lacrimogêneo, para que o presidente Trump fosse fotografado em frente à mesma igreja, com a Bíblia na mão.


Muitos gostariam de simplificar esses eventos – para os dar uma interpretação única e clara. Alguns contam uma história angustiante sobre a violência policial. Alguns contam uma história emocionante sobre policiais e comunidade se unindo. Alguns contam histórias insidiosas sobre saqueadores negros. Alguns contam histórias obscuras de brancos infiltrados em movimentos negros pacíficos. Algumas semanas atrás, Ed Young, do The Atlantic’s, descreveu uma “pandemia de colcha de retalhos”, um surto de Corona Vírus que está se desdobrando em diferentes caminhos, em diferentes partes do país. Agora temos uma colcha de retalhos de protestos, misturada com uma miscelânea de tumultos. Em cada um deles, a polícia e os manifestantes têm motivos diferentes, criando impactos diversos, e afetando as pessoas de diferentes formas.


Contudo, a internet está positivamente conectando as pessoas que querem encaixar essas diferentes histórias em uma única narrativa. Ontem, eu repostei no Twitter um vídeo curto, em que parece ser duas mulheres brancas, ambas vestidas de preto, com máscaras faciais também pretas. Invocando o movimento Black Lives Matters, elas estavam pichando BLM e outros grafites na fachada de uma cafeteria Starbucks, em uma cidade não identificada. Uma manifestante negra grita para que elas parem. “Irão culpar os negros por isso”, ela disse, “e os negros não fizeram isso”. Esse vídeo tem menos de dois minutos. Escrevi o título: “Essa é uma história inacreditavelmente complicada”.


Muitos responderam que não concordavam. Do que eu estava falando? Isso não é uma história complicada! Porque, obviamente, a mulher era membro da “antifa” de extrema esquerda procurando anarquia. Ou, porque, obviamente, as mulheres eram supremacistas brancas de extrema direita, procurando por guerra racial. Ou, porque, obviamente, as mulheres faziam parte de uma conspiração maior para desabonar os manifestantes negros. Uma pessoa escreveu que “cada coisa que tem acontecido é planejada pelos seguidores de Trump para pegarem Covid e ficarem desempregados, e mascarar as primeiras páginas dos jornais”. Outra pessoa me disse que os “antifa” estavam preparando esse caos por muito tempo. Uma terceira pessoa twittou outro vídeo, esse – aparentemente – de um branco, dono de uma loja na Carolina do Sul sendo espancado por manifestantes negros. Eu acho que isso foi criado para ser um tipo de contra-argumento: isso é o que os negros realmente são.


O ponto, para muitos, é encontrar justificativas para o que eles já acreditam, e o reforçar a identidade que eles já têm. Desse ponto de vista, a agitação é culpa dos negros (ou brancos), policiais (ou manifestantes), a direta (ou a esquerda). Os ânimos estão tão acalorados que o esforço em andamento para manipular imagens que surgem dos protestos já é uma indústria por si só, envolvendo incontáveis contas falsas, robôs e, provocadores. #DCblackout, uma incontrolável hashtag popular iniciada por uma nova conta de Twitter com apenas 3 seguidores, falsamente afirmando que a polícia impôs ocultamento de comunicação. Milhares de pessoas acreditaram nisso. Um grupo nacionalista branco, chamado Identity Evropa acabou se mostrando o verdadeiro dono da influenciadora conta viral chamada @ANTIFA_US. No Twitter e em um grupo de mensagens privadas eles pediam por violência – e milhares de pessoas acreditaram nisso também.


A proliferação de falsas histórias e falsas narrativas não significa que a verdade não existe, ou que os americanos nunca irão descobrir o que realmente aconteceu. Mas significa que a história completa deve ser dita de uma forma bastante complexa, de diferentes ângulos, por muitas pessoas. Isso requer tempo e paciência, bem como, um tipo de jornalismo que milhões de americanos já não confiam mais. Como se não bastasse, as dúzias de ataques físicos dos policiais a jornalistas nos últimos dias, oferecem prova concreta de que os constantes ataques verbais do presidente aos jornalistas, têm sido absorvidos e acreditados por muitos, incluindo bom número de policiais. Falsas histórias podem ser propagadas mais facilmente quando as pessoas que estão tentando contar histórias verdadeiras têm sido desacreditadas - ou quando elas são agredidas com balas de borracha.


Em todo caso, muitas pessoas não vão querer ouvir a verdade. E muitas pessoas irão querer, ao invés disso, que todos se calem. Eles irão querer força, violência, o que for preciso para que a cacofonia pare. A cientista comportamental Karen Stenner, tem escrito com muita eloquência sobre pessoas que têm o que ela chama de predisposição autoritária, um tipo de personalidade que se incomoda pela complexidade e é especialmente enfurecida por discordâncias. Trump tem feito de si mesmo, precisamente, o porta voz para esses americanos autoritários. Eles foram o público de sua decisão de usar gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes pacíficos da Praça Lafayette. É para eles que ele utiliza a linguagem de “dominação”, para eles que ele chama o exército, helicópteros, para que as cidades sejam tratadas como “espaços de batalha”, nas espantosas palavras do secretário de defesa americano.


A Igreja e a Bíblia também foram parte da mensagem. Trump nem ao menos fingiu que ele estava indo à Igreja St. Paul para rezar. Ele não pediu permissão à igreja ou diocese e nem ao menos mostrou convicção em Deus. Ao contrário, o clero episcopal foi retirado da área pelo mesmo gás lacrimogêneo que dispersou os manifestantes. Ao invés disso, ele segurou uma Bíblia para as câmeras, não como um gesto religioso, mas como um bilhete. Trump estava mandando uma mensagem para seus americanos com predisposição autoritária: Eu compartilho a sua identidade. Eu sou parte da sua tribo.


Mas força não é a única resposta possível para a cacofonia. Ao invés do silêncio imponente, você pode produzir harmonia. Você pode criar uma narrativa diferente – uma narrativa maior que coloca as pessoas unidas. Você pode procurar pelo consenso; você pode apelar para algo que todos concordem. Você pode invocar por patriotismo, América, os documentos dos fundadores, ou apenas a crença de que as coisas podem mudar para melhor.


Historicamente, essa é a tática que os maiores e mais amados líderes americanos sempre usaram. Abraham Lincoln recorria aos “melhores anjos” da nossa natureza. Martin Luther King Jr. falou do “todos são filhos de Deus”, e o direito delas de desfrutar da liberdade garantida pela nossa Constituição. A prefeita de Atlanta, Keisha Lance Bottoms, tentou um tipo de apelo similar no domingo. Ela recorreu à história de Atlanta, e ao legado de não violência de Martin Luther King. “Um protesto tem propósito”, ela disse, mas a violência, não. “Quando você incendeia essa cidade”, Bottom declarou, “você está incendiando nossa comunidade”. De uma forma consagrada pelo tempo, ela encorajou os moradores de Atlanta a fazer uso das instituições democráticas, a fim de melhorar a sociedade: “se você quer mudança na América, vá e registre seu voto! Compareça à votação em 09 de junho! Faça isso em novembro!”


A questão, agora, é se os velhos mantras americanos, os apelos à tradição da democracia e o estado de direito, continuam a funcionar – ou se eles se tornam apenas outra narrativa competindo na guerra de informação. Certamente o presidente está assumindo à última. Todos os chamados pela comunidade, diálogo, discussões de boa-fé – esses são apenas outro conjunto de argumentos que ele tem que derrotar. Se Trump for para vencer em novembro, ele terá que enfraquecer não apenas a imprensa, e não apenas a confiança pública, mas a própria fé na democracia.


Ele tem que convencer aos americanos de que nada irá funcionar adequadamente, que todas as instituições têm falhado, e que apenas a violência permanece. Ele tem que convencer todas as pessoas que estão sentadas em suas casas, como eu, cercadas por árvores e grama, que elas estão correndo grave risco de perigo diante das suas telas barulhentas, que seja necessária força bruta para lhes calar. Ele tem cinco meses restantes para forçar esse argumento.

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